Balanço da copa ou qualquer coisa assim

O futebol foi bonito, mas na Copa, o futebol virou detalhe agigantado. Não era sobre futebol.
Foram incontáveis despejos, e destes, tantos debaixo de porrada e bala – porque o estacionamento, o estádio, a copa, valem mais. E se pessoas foram removidas de suas casas, de seu bairro, de perto do emprego ou da escola, e se outras ao menos tiveram pra onde ir, tudo bem: teve copa.
As prisões arbitrárias, o uso abusivo e desproporcional da força policial que resultou em oito mortes durante as manifestações, a restrição da liberdade, a cidade sitiada, todo esse absurdo espetáculo da “segurança” que montaram nas cidades que vêm deixando de ser nossas, alimentaram ainda mais o autoritarismo do Estado, da Polícia, e dos interesses aos quais eles servem. Esses mesmos que matam todo dia nas periferias enquanto a gente se cala. O Amarildo foi morto, a Cláudia também, a Karinny apanhou, ninguém sabe onde está o Matheus e o Hideki pode pegar 13 anos de prisão porque quis manifestar.
Aos que insistiram em escutar e responder apenas às críticas reacionárias da direita à Copa e ao Governo, da Veja, da Globo, do Aécio, de todo o coro que dizia que nada iria funcionar, os aeroportos não suportariam, os estádios não ficariam prontos, os estrangeiros deixariam o Brasil abismados, a organização seria uma vergonha e a Copa, um total desastre, meus parabéns. A organização foi inquestionável, deu tudo muito certo na Copa das copas.
Mas os gritos da rua que vocês escolheram ignorar, dos que apanham da polícia, dos que tem seus direitos pisados, dos que sempre foram criminalizados e dos que passaram a ser porque quiseram lutar, não sai da mesma garganta que vaia a Dilma no estádio. E o que provoca esse grito a FIFA não vai levar pra casa. Despejos em nome de forças econômicas vão continuar, a criminalização das manifestações só começou, o autoritarismo da polícia e do Estado se fortalece cada vez mais, e a população das periferias e favelas, principalmente a negra, vai continuar sendo encarcerada, humilhada, torturada, desparecida e morta, pelas mãos dessa mesma polícia, desse mesmo Estado.
Esse governismo aloprado que coloca o Não Vai Ter Copa da esquerda, dos movimentos sociais, da luta, como discurso sabotador da direita é tão desonesto quanto a grande mídia que ele tanto critica. E critica com razão – mas se a postura é mesmo essa, é bom lembrar que está muito mais do lado deles do que do lado de cá.
Teve copa sim, teve muita copa, teve copa pra caralho. Deu tudo muito certo. A custo de quê?

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Bandido bom é bandido que sabe quanto vale

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“Bandido bom é bandido morto.” Paulo proferiu o aclamado bordão dos defensores dos cidadãos de bem e da segurança pública (por pública entende-se a segurança dele). Paulo está no segundo período de um dos cursos que sempre sonhou em fazer, eram vários, claro! Estudou em uma das melhores escolas privadas da cidade, paga com o trabalho árduo dos pais. Em seu quarto, abre o facebook e compartilha o link com o assaltante baleado por um policial ao tentar roubar uma moto e reafirma, agora por escrito e em caixa alta “BANDIDO BOM É BANDIDO MORTO!” e em seguida parabeniza o policial pela ação heroica. Paulo guarda um enorme apreço pela farda e pela arma. O que seria de nós sem eles? Uma pena o policial não ter matado o assaltante, bandido bom é bandido morto! Quem ficou com peninha que leve um bandido pra casa. Ele violou a propriedade privada, deveria ter morrido sim! A vida dele não vale aquela moto. E acrescentou:

“A vida do bandido não vale um real”

A violação de direitos não o incomoda tanto assim. Paulo não liga muito para as vidas violadas do outro lado do mundo, ali mesmo na favela que ele vê da sua janela do décimo primeiro andar.

Naquela favela cresceu e vive Pedro. Pedro Júnior, o pai também é Pedro. Pedro pedreiro penseiro esperando o sol, esperando o trem, esperando aumento desde o ano passado para o mês que vem. E como aumento algum veio, Pedro filho precisa continuar estudando naquela escola onde faltam cadeiras e a professora de Português ensina também História e Geografia e onde não se vê um professor de Matemática há meses. Mas tudo bem, ele sabe, tem que se virar com o pior. Aprendeu desde cedo, vendo o mundo funcionar, que por ser pobre tinha que se contentar com menos. Menos educação, menos saúde, menos conforto, menos espaço, menos respeito. Menos humanidade. É o seu valor. É a parte que lhe cabe. Pedro, além de nascer pobre, nasceu preto. E aprendeu rápido que pobre e preto no Brasil, aí é que valia menos ainda. Pobre, preto e favelado, aprendeu que por o ser já podia ser tratado como bandido, e se era bandido a polícia podia matar. Foi assim com o irmão mais velho, foi assim com dois colegas, foi assim com tantos pais em tantas favelas. É assim.

Pedro cresceu vendo o homem fardado com direito de abusar do poder e da bala, cresceu vendo crime organizado e cresceu vendo o tráfico. E à medida que crescia, sempre que saía da favela via a vida que não lhe cabia e tinha raiva. O pai trabalhava tanto, a mãe também, ele também. E nada daquilo era deles? Nem um pedacinho? Não era, nenhum deles, nem todos juntos valiam uma mísera fração daquilo.

Certa noite a polícia levou o Pedro pai, o Pedro pedreiro penseiro. Pedro filho nunca soube porque e nem para onde.  Dinheiro na casa de Pedro esvaia e a raiva do Pedro expandia e ocupava os três cômodos. Ele começou a fazer o que muitos outros já faziam. Dois amigos já haviam entrado para o crime organizado. Roubavam, vendiam drogas. Muitos outros amigos de Pedro, iguais a ele, preferiram não entrar. Pedro escolheu seguir os dois primeiros. De começo foram pequenos furtos, até então uma carteira e dois telefones celulares. Talvez com a prática passasse a conseguir um pouco mais.

Dessa vez foi uma mochila, dentro dela um notebook. Dois policiais chegaram em uma viatura, Pedro correu e quando Paulo viu no sofá da sala no décimo primeiro andar a notícia de mais um assaltante baleado pela polícia, e dessa vez morto, sorriu e esbravejou orgulhoso “É isso! Bandido bom é bandido morto! É isso que vai acabar com a violência nesse país, matar esses vagabundos”. Matar esses vagabundos, esses outros. O amigo que revendia na faculdade a droga comprada do amigo de Pedro, o tio que sonegava impostos, e ele próprio quando dirigiu bêbado e quase matou uma pessoa atropelada, esses eram outra categoria de infratores. Bandido era o pobre, era o vagabundo. E vagabundo tinha mais é que morrer mesmo.

O primeiro tiro foi na perna. O segundo nas costas, por trás do peito. Pedro levou uma mochila e levou dois tiros, morreu. Justo, dirá Paulo, é isso que bandido vale. Antes de morrer, antes do disparo, antes da mochila, antes de sair de casa;  Antes mesmo de crescer, Pedro já sabia quanto valia sua vida, quanto valia seu futuro. Pedro aprendeu muito bem e muito cedo o seu valor.

Não valia um real.

 É muito triste – e muito chato – ainda ter que bater nessa mesma tecla. É muito triste que tanta gente ainda se recuse a reconhecer que assaltos como a da tentativa de roubo da moto que terminou com o assaltante baleado não são ações individuais isoladas. Gente que se recusa a entender que é um problema sistemático, que se recusa a enxergar as condições e os absurdos que fazem com que essa cena se repita. A questão da segurança pública não pode ser analisada nem da perspectiva da vítima, nem do assaltante. Essa análise pede um distanciamento, pede a compreensão do que ocasiona a realidade que vemos hoje. Não cabe a mim julgar se a atitude do policial foi a melhor possível, eu não entendo nada disso. To falando de quem comemora morte de assaltante. To falando de quem fala de “extermínio de bandido” como solução pra violência.

Se você pensa como o Paulo, fique sabendo que a vida do assaltante vale tanto quanto a minha e a sua. Sua vida vale tanto quanto a do Pedro. E tenha pelo menos a decência de admitir que assaltante levando tiro não resolve em NADA o problema da violência. Apenas satisfaz o tesão da sua cabecinha punitivista, te faz rir porque acaricia seu sadismo conservador. É engraçado pra você ver aquele que você considera menos gente se foder. Pouco te importa o que vai melhorar a segurança pública, a segurança de todos. Você só quer que ele se foda. Você é um merda.

(Nota aos leitores)

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Breve impressão sobre a quebra da santa (sujeita a mudanças)

Meu deus, quebraram a santa!
Quebraram a santa e enquanto isso a Igreja Católica distribuía mini-fetos em campanha contra a legalização do aborto. E aí vocês vêm me falar de respeito. Quebrar a santa foi desrespeitoso com a crença pessoal de muita gente? Sim. Isso invalida a expressividade da ação? Jamais. Não foram poucos os que disseram que com essa falta de respeito os manifestantes estariam se igualando à Igreja, agindo como seu opressor, sendo tão intolerante quanto. Oi? Quando falamos de Catolicismo, não estamos falando de desrespeito. Estamos falando de perseguição, genocídio, privação de direitos, pedofilia, condenação do uso de anticoncepcionais, enfim, a lista é longa. Estamos falando também de uma instituição com influência direta na constituição da sociedade tal como ela é – patriarcal, homofóbica, racista. Sim, a destruição das imagens desrespeita a crença pessoal (vale lembrar que, o que de um lado representa a fé, do outro simboliza opressão), mas foi só. “Ah, mas enfiaram a cruz no cu!!!!”, bom, tem uma cruz se metendo no meu útero desde que eu nasci e outra cruz enorme que diz que meu corpo não me pertence, que mulher deve ser submissa e que ser gay é pecado. O que é uma cruz no cu de quem já tem o corpo inteiro preso a um rosário? Não sei dizer se essa ação foi uma boa estratégia, não tenho embasamento nem experiência pra isso. Mas foi uma ofensa. Uma ofensa. Parem de cometer a atrocidade de comparar o que aconteceu à Intolerância da Igreja Católica. A Igreja não ofende, ela descrimina, priva e mata.
De início minha posição sobre o ocorrido era de que teria sido um ato pouco esperto, um tiro no pé, um passo pra trás que dificulta o diálogo e amplia o antagonismo. Não soube dizer se tinha sido certo ou se tinha sido errado, mas talvez não seja uma questão de certo e errado. Depois de algumas leituras e discussões percebi que o debate não permeia puramente a dificuldade do diálogo com a Igreja, com o catolicismo. Esse diálogo sequer existe? E afinal, interessa tentar o diálogo com o opressor? Não estaríamos, dessa maneira, negociando os direitos que são – ou deveriam ser – nossos? Dá pra desconstruir um sistema opressivo com as ferramentas de quem instituiu a opressão? O catolicismo não vai abrir mão dos privilégios que possui, e o poder da igreja implica a opressão que ela pratica. É ingênuo esperar que isso mude de dentro pra fora. E enquanto esperamos, a opressão continua. O que me parece é que foco não deve ser o desejo de que a Igreja Católica se transforme, mas a exigência de que seu poder acabe. E esse poder não vai ser entregue em uma bandeja de prata com flores nas bordas, o poder precisa ser arrancado. A luta feminista inclui estado laico, inclui questionar e derrubar os privilégios do cristianismo, e nesse ponto a ação do coletivo coiote deve ser levada em consideração. Gente, alguém realmente acredita que eles não sabiam que estavam sendo desrespeitosos? Que opa, foi só uma brincadeirinha, desculpa pela ofensa? É muito raso que o debate seja restrito ao foi ou não foi desrespeitoso, principalmente o debate dentro do feminismo que é um movimento tão heterogêneo. A ação teve um significado, uma mensagem: “ei, Igreja Católica, você não é minha amiga. Eu não quero dialogar com você, eu não quero seu respeito, só quero suas crenças longe do meu corpo, dos meus direitos”. Se acrescentou ou não à luta, se foi ou não eficaz, não me cabe dizer. Mas esse desespero em simplesmente repudiar, principalmente por parte das feministas, também não é um caminho muito produtivo. É nas divergências que o feminismo pode evoluir e é na evolução do feminismo que a luta ganha força.
Se me pedissem pra apontar um erro, eu diria que o contexto talvez não fosse o ideal. A Marcha das Vadias é um movimento bastante amplo, que engloba inclusive as meninas do CPDD. A quebra da santa não representa a Marcha (como a organização já avisou), mas representa uma voz dentro dos movimentos sociais que também precisa ser ouvida, não silenciada pelas próprias feministas. Dizer que “não representam feminismo” é tão ignorante quanto dizer que representam todo o feminismo. O ocorrido deve ser colocado em discussão, não em julgamento. Não podemos esquecer do que o Catolicismo representa, o fato de haver católicos que se identifiquem com o feminismo de alguma maneira não muda o que a tudo Igreja fez e faz. E mil santas quebradas não se comparam a isso.

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